Alinho os ombros, a coluna, o tronco todo sobre os quadris e sento-me no primeiro degrau das escadas. Assim sustenho melhor as emoções e aligeiro um nó, que me faz doer o peito.

Ganharam um tom esverdeado, da invernia. Tudo o mais é igual. Quinze degraus de pedra, para subir ou descer, consoante a intenção. Apoio a mão no degrau, como se lhe sentisse o pulso fraco como o de um moribundo, que sente o sangue percorrer-lhe o corpo, com o vagar de uma morte anunciada.
Já foram feras, desafiadoras, obstáculos marcados a giz. Já foram galgadas de duas em duas, saltadas a partir do quinto degrau, esfoladas sem dó, elas e nós, irmãos, amigos, primos.

Assim, silenciosas, trazem-me à memória as tardes soalheiras em que repetidamente ensaiava o atar dos atacadores, nuns ténis Sanjo. Meticulosamente alinhava-os, para que tivessem o mesmo tamanho e depois fazia e desfazia a laçada, o nó. Isto tudo de olhos abertos e depois de olhos fechados, que o tempo sobrava e as escadas dormiam, no calor da tarde.

Se publicasse aqui uma fotografia destas escadas, seria uma desilusão. Destronaria totalmente a imaginação que cada um criou destes degraus esverdeados pela invernia. Umas escadas, são apenas isso, a não ser quando descobrimos o que representam para nós, além do conceito e da  função.

Encontro nestas uma identidade própria e uma capacidade enorme de me restituir as lembranças de mim.
Escrever sobre estas escadas era coisa para levar o seu tempo. Fico-me por aqui.

Ah!Têm degraus de gente.

N.B.

 

 

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