Atrasei-me!

O tempo é muito mais do que as horas marcadas pelo relógio. Adiei, convencida que depois, sempre depois, existia um momento mais oportuno. Por isso, quando recebi a notícia da sua morte, senti que tinha falhado nas minhas expectativas, nas minhas prioridades, na organização do tempo e dos afectos.

Acabava de assistir a uma peça de teatro com a minha filha mais nova, em que o lobo era encarnado, em vez de vermelho, a avó era um avô, a menina era um menino, e afinal o lobo era bom, o menino é que precisava de uma lição.

E assim, estava eu, refém das boas intenções. Uma lição severa demais!
O meu tio já tinha 98 anos, era o último irmão da minha avó. A minha visita era mais importante para mim, do que para ele.
Imagino-me a abrir um livro empoeirado, numa biblioteca subterrânea, onde guardo esta mágoa.

Imagino que a primeira página do livro descreve uma tarde de primavera, aquela que adiei. E talvez, nessa altura ele, generoso como é, me interrompa para me lembrar, que a maior parte das vezes, estamos onde fazemos mais falta.
Até sempre tio Joaquim.

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