
** fotografia do meu conterrâneo Sr. Manuel Dias, partilhada no Facebook.
Às vezes, tenho dificuldade em diferenciar o direito do avesso. Será pressa, distração ou a perfeição da peça, mas acontece. Nesta história, que tenho tão presente, acontece-me o mesmo. Talvez as ingerências do presente não me permitam ser precisa com o que ficou para trás.
O mundo inteiro cabia na avenida, que mais não é que uma rua larga que atravessa toda a aldeia. Na escola primária aprendi a escrever a morada: Avenida Marechal Carmona. E veio um dia em que mesmo não mudando de casa, a morada já não era a mesma.
Avenida 25 de Abril, assim que se passava a chamar.
Fez-me confusão que se pudesse mudar o nome da minha rua, assim. Temi que a partir dali tivessem a ousadia de mudar tudo. A escola seria um lugar de onde nunca sairia, se tudo fosse inventado, novamente.
Não sei medir o tempo que passou por esta avenida. Prefiro mobilizar a memória e alargar os meus olhos num sorriso, como quem brinca na rua sem medo. Havia comercio, tabernas e cafés, uma pensão, fábricas, oficinas, posto médico, retrosaria e centro de lavores. Ao toque do meio-dia saíam que nem enxames, homens e mulheres estrada abaixo, que o relógio era ditador. Elas com as mãos maltratadas da salmoura, do pimento e do tomate, davam nome à hora do almoço e da janta, com a mesma labuta de quem trabalhava numa fábrica. Os homens apressados cumpriam os horários com outro vagar, fumavam cigarros, conduziam motorizadas e o capacete deixava ver o bigode e as patilhas, a combinar com “a nova” Avenida.
A avenida 25 de abril é um lugar feito do entusiasmo do avesso, onde cabiam gentes, costumes, azáfamas, a aldeia inteira.
Hoje os cafés são outros e as mercearias, também. Das fábricas não saem enxames de gente, as motorizadas deram lugar aos carros. Há outros estabelecimentos comerciais, um hotel, um banco, um lar de idosos e pouco subsiste do passado recente.
São outros os homens e as mulheres desta avenida. Já sei tão pouco deste lugar. Fragmentos de isto ou daquilo, é assim que vejo a avenida 25 de abril.
N.B.

2 Comments
– MUITA HAVERIA A DIZER SOBRE TANTAS TRANSFORMAÇÕES – O ESQUECIMENTO DO PASSADO, ETC. ETC… MAS FICO POR AQUI – ESTOU "CANSADO" – VELHO; E JÁ NÃO VALE A PENA FALAR… RESTAM- NOS AS *BELAS RECORDAÇÕES* DESSE PASSADO – DESSAS GENTES!… «ESCREVE- ME DE VAGAR» – Mas escreve sempre Natália; faz- nos BEM/MUITO BEM à alma!!!…
Obrigada e continue com o seu Canal da Crítica. É importante haver quem fale com propriedade, seriedade e conhecimento. Beijinhos