Às vezes, tenho dificuldade em diferenciar o direito do avesso. Será pressa, distracção ou a perfeição da peça, mas acontece. Nesta história, que tenho tão presente na memória acontece-me o mesmo. Talvez as ingerências do presente não me permitam ser precisa com o que ficou para trás: 

O mundo inteiro cabia nesta avenida, que mais não é que uma rua larga que atravessa toda a aldeia.
Por palavras escritas ensinaram-me a escrever a  morada: Avenida Marechal Carmona.
Por palavras escritas um dia ensinaram-me que mesmo não mudando de casa, a morada não era a mesma.
Avenida 25 de Abril, era assim que se passava a chamar.

E fez-me confusão que alguém pudesse mudar o nome da minha rua! E fez-me temer que a partir dali tivessem a ousadia de mudar tudo! A escola pareceu-me um lugar de onde nunca sairia se tudo tivesse de ser inventado novamente.
Não quero medir o tempo que passou por esta avenida. Prefiro mobilizar a memória e alargar os meus olhos num sorriso, como quem brinca sempre na rua, sem medo.
Havia comercio, tabernas e cafés, uma pensão, fábricas, oficinas, posto médico, retrosaria e centro de lavoures. Ao toque do meio dia saíam que nem enxames homens e mulheres estrada abaixo, que o relógio era ditador. Elas com as mãos maltratadas da salmoura, do pimento e do tomate, davam nome à hora do almoço e da janta, com a mesma labuta de quem trabalha numa fábrica. Os homens apressados cumpriam os horários com outro vagar, fumavam cigarros, conduziam motorizadas e o capacete deixava ver o bigode e as patilhas, que combinavam com “a nova” Avenida.

Tudo isto é um lugar feito do  entusiasmo do avesso, onde cabiam gentes, lugares, costumes, azafamas.

Hoje, os cafés já não são os mesmos, nem as mercearias. Das fábricas já não saem enxames de gente, as motorizadas deram lugar aos carros. Apareceram outros estabelecimentos comerciais, um hotel, um banco, um lar de idosos e pouco subsiste de um passado recente.
São outros os homens e as mulheres desta Avenida, na minha aldeia. Já sei tão pouco deste lugar.
Fragmentos de isto ou daquilo, é assim que vejo a Avenida 25 de Abril.

N.B.

 

Fotografia de André Barragón

 

Autora

2 Comments

  1. – MUITA HAVERIA A DIZER SOBRE TANTAS TRANSFORMAÇÕES – O ESQUECIMENTO DO PASSADO, ETC. ETC… MAS FICO POR AQUI – ESTOU "CANSADO" – VELHO; E JÁ NÃO VALE A PENA FALAR… RESTAM- NOS AS *BELAS RECORDAÇÕES* DESSE PASSADO – DESSAS GENTES!… «ESCREVE- ME DE VAGAR» – Mas escreve sempre Natália; faz- nos BEM/MUITO BEM à alma!!!…

  2. Obrigada e continue com o seu Canal da Crítica. É importante haver quem fale com propriedade, seriedade e conhecimento. Beijinhos

Escreva um comentário