As histórias infantis começam com “Era uma vez…” e terminam com “foram felizes para sempre.”. Esta começa com um “há” de haver, continua com muitos mais “há” de haver e termina num mundo sugestivo de paladares. Ora vamos lá:
Há um mês no ano, em que deixam o Alentejo e instalam-se na cidade. São as abóboras, que o tio Arês, ou o avô João plantam na horta. Redondinhas, de cor laranja, habituadas ao sol do campo, às noites frescas da horta, ao som dos grilos, das cigarras e da capoeira que se alvoraça, quando há raposa por perto. O mais alto que a vista alcançou, foi certamente os quintais dos vizinhos, quando postas ao sol, no telhado da casinha da lenha.
Há um dia, em que tudo isso é substituído por um cantinho da nossa cozinha. Depois ganham um nome próprio. O ano passado tivemos uma Clotilde, este ano temos uma Violeta. E ali ficam, à espera.
Há um dia, em que se instala o reboliço, aparecem canetas, cabeleiras e um frenesim de risos, capazes de tornar diferente um dia, que parece igual a outro qualquer.
Fica feminina a abóbora, que destas coisas nada entende. Fica gira e vaidosa com os adereços que esta gente lhe oferece.
Há um dia, que dizem ser de Halloween, ou das Bruxas, ou lá o que é. Nesse dia os ponteiros do relógio andam ao mesmo ritmo, mas é diferente. Quando nos divertimos, quando o tempo não é a soma de todas as rotinas, que tivemos que instalar, então simplesmente recuperamos fôlego, energia.
(Isto é a voz do narrador, caso não se tenham dado conta!)
E depois da brincadeira, dos festejos e tudo o mais, a abóbora Clotilde e a abóbora Violenta têm um caminho igualmente original. Neste ponto poderia derivar para o filme de terror com facas afiadas, que cortam de alto a baixo as abóboras, mas não tenho veia para isso.
Termino esta história dizendo que há um dia em que estas lindas abóboras se transformam em maravilhosas sopas, deliciosas compotas, e a casa se perfuma com o cheiro de bolos e bolinhos.
Nesses dias, agradecemos a quem nos ofereceu a abóbora. É assim, que devem terminar as
histórias!
N.B.
** Dedicado às minhas filhas, são elas que me dão entusiasmo para todas estas coisas.