Entraram juntos no cemitério. Ele para cumprir uma promessa, visitar os seus. Ela para o acompanhar. No início, há contenção nas palavras e sobram emoções, enquanto se ajeitam rosas brancas numa jarra de mármore. Cada um dos que ali descansa é, agora, um lugar concreto. A data de nascimento e morte, o nome, são elementos comuns a todas as campas. Quem saiba ler a topografia deste lugar, pensa ela, depressa descobre outros elementos diferenciadores.

Há, neste hangar de saudade, diferentes épocas enunciadas pela arquitetura fúnebre. Há desgostos eternos, saudades incomensuráveis e a aceitação da lei da vida. É nisto que pensa, enquanto o companheiro se movimenta entre as campas, como quem vai ao encontro das gentes da sua terra.

Começa uma visita que ela não esquecerá. Animado a cada descoberta, ele explica-lhe quem foi cada um dos que ali jaz. Para isso, imita tiques, gaguez, maneiras de andar, posturas peculiares, relembra uma boina, um cigarro atrás da orelha, tons de voz, o fino, o abrutalhado, um toque de gaguez e as alcunhas, também. E ela cede no riso, nas gargalhadas e nas lágrimas, lembrando-se de muitos. Quem os visse não entenderia as memórias felizes que os enchem por completo, como se estivessem num outro lugar.

Há um silêncio periférico que propaga as palavras, que redimensiona a presença dos dois, ali. E a visita continua num tom de diálogo, em que por vezes, ela reconhece não ser o recetor. Ele fala-lhe de um homem bom, enquanto dá palmadinhas na lápide como se faz nas costas de um amigo. Ela lembra-o, ao homem bom. E Percebe, que há conversas que só se têm com gente da mesma terra.

O cemitério já não é um lugar triste, afinal não se guarda ali a dor inteira, a outra parte está com os que cá ficam.
Enquanto saem, instala-se um silêncio de prefácio. Ambos sentem que conversarão sobre disto, muitas vezes.

A morte é um desacerto com a vida.
É Verão. Só os pardais e a brisa do vento preenchem o silêncio que os envolve.

N.B.

 

* imagem encontrada na net

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3 Comments

  1. É uma delícia ler o teu blog.
    Muitos parabens.
    Muitas saudades.
    Milhões de beijocas. Dulce

  2. Sim, sou eu.
    Perdi os teus contactos.
    Liga-me, para falarmos. Tenho imensas coisas para te contar.Bjocas Dulce

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