Eu e o meu avô, uma fotografia esquecida, perdida há mais de quinze anos numa mala de viagem que deixou de exercer a sua função e para ali estava, guardadora de tantas coisas que julgava perdidas. É feliz, o momento, pela descoberta da fotografia, feliz pelo que regista.
Gostava de saber o que me dizia o avô, enquanto eu olhava deslumbrada a objetiva. As fotografias estão cheias de silêncios cada vez mais difíceis de preencher com o passar do tempo. Fazem falta contadores de histórias para escolher as palavras e dar voz aos protagonistas, ao espaço e ao tempo da narrativa. Imagino que o avô me dizia algo engraçado. Imagino que as palavras se lhe soltassem encostadas umas às outras, com a mesma proximidade carinhosa com que me segurava naquele balcão de café.
Ao olhar para a fotografia ouço o silêncio do tempo que passou.
Avô, se hoje me perguntasses, o que gostavas de ser quando for grande, dir-te-ia, Contadora de Histórias.
Há histórias que se contam com muitas palavras, outras contam-se de silêncios. O meu receio é não saber escrevê-los, aos silêncios. Posso fazer pausas não achas, avô?
N.B.
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