O olhar é como uma rede de pesca que tudo abarca. Uma arma, uma força poderosa, que vê muitas vezes aquilo que não é, aquilo que não és, que não sou.
Penso nisto, a propósito das fotografias que publicamos nas redes sociais. Dou por mim a imaginar a máquina que um dia mostrará o outro lado da gente. O lado descomposto, desarrumado, menos bonito, infeliz.
Uma fotografia é apenas um algarismo numa imensa conta de dias, de anos de vida.
Faz os descontos às horas más. Faz a prova dos nove, se conseguires. Aplica-lhe a raiz quadrada das conquistas, das vitórias, das alegrias maiores e acrescenta-lhe três quartos de tristeza, um meio de frustração, pequenas traições no arredondar das contas e encontra o resultado.
É complicado, não é?!
São demasiadas fórmulas para chegar ao outro lado da gente.
Nunca uma fotografia poderá oferecer toda essa existência, o melhor dos bastidores.
É reconfortante, saber disso.
Do outro lado da objetiva somos genuínos. Somos a magia que permite adivinhar, na conta e na medida, em que nos conhecemos.
N.B.