Dedicado a todos os Peri da Pituba

 

A terminar Maio, o sol anda entretido noutros lugares, com outras gentes. Quero pensar que é assim.

A minha cadela impacienta-se, olha-me como quem diz:
“- Pssst, quantos toques mais nesse teclado para irmos lá fora?”. Pressiona-me. Faltam-lhe palavras, no que sobra de olhos, postura, movimento. Há uma sintaxe muito clara quando deitada, junta as patas da frente apoiando o focinho, à espera de um movimento que indique: RUA.
Conhece-me tão bem e pensa-me com os olhos. A sua maior habilidade é essa. Ontem, enquanto via a reportagem sobre o grande jogador brasileiro, Peri da Pituba, que mendigava nas ruas de Lisboa e advertia para o maior flagelo deste século, A Solidão, ali estava ela.
” A solidão é fera!”, dizia Peri, com a voz embargada de anos dela.
A minha Daisy, como que a entender o que havia naquelas palavras, levantou as orelhas, num movimento vagaroso, aninhou-se no meu colo, antecipou um alisar de pêlo e respondeu ao meu olhar, com a sua maior habilidade, uns olhos cheios de tudo, menos solidão.
 Entre nós o silêncio não pesa. As palavras de Peri da Pituba não existem nos olhos da Daisy, nem nos meus. É um pormenor.
Aqui, nestas linhas a ausência de Solidão é um pormenor e Deus não atende a pormenores. Peri da Pituba, voltou a casa. Isso, já não é um pormenor.

Parabéns à Sic pela iniciativa, pela reportagem, o resto é obra  de Deus. Digo eu, que às vezes converso com Ele, mas isso é… um pormenor.

N.B.

Autora

Escreva um comentário