Ouço com frequência, que as segundas-feiras são o pior dia da semana, que as quartas carregam um certo ânimo, que as sextas são do melhor e que os domingos são um tédio. Há alguma verdade nisto. É importante resistir ao cansaço e criar memórias.
Nos meus tempos de faculdade participei de um seminário sobre, A Memória. Não faltaram classificações, epítetos, nomenclaturas, para designar esta coisa que se faz de tempo, de passado. Falou-se de memória etnográfica, de memória antropológica, cinematográfica, sensorial, afetiva. Assim nasceu o título desta história.
Sexta-feira é a referência temporal, o toque adocicado na minha memória. Não por uma qualquer banalidade, a minha sexta-feira sempre teve sabor a chocolate, pelo menos num cantinho da minha memória.
À sexta-feira o lanche era pão com chocolate. Sem Tulicreme ou Nutela, apenas com uma barra de chocolate própria para degustar no pão, a motivação que me levava a aceitar ir para a mestra, depois da escola.  No Alentejo havia esta instituição de carácter particular, com laivos de vizinhança e detentora de plenos poderes punitivos, sempre que a miudagem saía da linha.
Tive duas Mestras. Da primeira pouco me recordo. Passava o tempo a fugir, lavada em lágrimas, até a minha mãe desistir. Guardo uma recordação picante. Dona Idelmira, assim se chamava, esfregava malagueta nos lápis para impedir as crianças de os roer. E garanto, que não sendo pedagogicamente correto,  funcionava.
É com a menina Margarida, a outra mestra, que acabo por me habituar. Ali imperava a disciplina, o estudo, os bons modos, como costumava referir, vezes sem conta. A parte lúdica resumia-se ao cantarolar de canções infantis, à leitura de contos e, também, rezávamos. O melhor de tudo era a hora do lanche. Normalmente, gostava mais do lanche das outras meninas, uma fixação mútua, que resultava  num festim.
A minha mãe estava convencida que me garantia um excelente complemento educativo, quando pagava a mestra. O que sei, sem querer excluir o que não me lembro, é que o melhor de tudo era o pão com chocolate. Havia em mim uma impaciência que se desfazia à sexta-feira.
Há melhor recordação da sexta-feira, do que pão com chocolate?!

N.B

 

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