Vista do chão, a Casa dos Rapazes, tinha a graça das construções imperfeitas, naif, provocadora da curiosidade alheia. Um corpo de paletes de madeira, traves requeimadas do caminho de ferro, papelão, uma velha porta e outros aproveitamentos ligados entre si pelo engenho febril dos rapazes.
Pena não correr por ali um rio, o Mississípi, e na certa contar-se-iam aventuras como as de Tom Sawyer. Mas por ali, apenas corria um pequeno ribeiro, nada que impedisse imaginar o interior daquela casa interdita às raparigas.
Caramba, mas porquê tanto zelo? Afinal o que escondiam lá? Melhor dizendo, o que faziam lá?
Crescia a especulação, a curiosidade que ganhava forma em manobras obscuras feitas de chantagem, sempre com o mesmo resultado: Reservado aos Rapazes.
A copa do imenso sobreiro foi o segundo teto da casa durante algum tempo.
Chegou o dia em que tudo mudou. A casa era a mesma, aninhada no sobreiro, os rapazes é que sendo os mesmos eram agora outros. Sem qualquer interferência das raparigas,  deixou de haver interdição ao sexo feminino. Em contrapartida, a casa perdera o encanto que a proibição lhe dava. Ficou vazia, mais tarde abandonada. A porta empenada não conheceu outros inquilinos e a arquitetura engenhosa, parecia cada dia mais deteriorada.
Os rapazes quebraram o letreiro da interdição, que durante tanto tempo ostentaram. Encontravam-se todos num território novo, uma espécie de Finisterra, um lugar onde se legitimam experiências, onde se amadurece, se esmiúçam emoções, se substituem silêncios e verdades por dizer.
Rapazes e raparigas sentem a mudança e momentos houve em que todos tiveram saudades da Casa dos Rapazes.

N.B.

 

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