A primeira vez que dei aulas foi em 1995, na escola Básica Integrada de Portagem, concelho de Marvão. A particularidade deste início de carreira prende-se com o facto de ser filha da terra. Nasci neste concelho e dei por mim a desempenhar um papel que me possibilitou conhecer, sob outra perspectiva, muitos dos me viram crescer.
A escola integra-se no Parque Natural da Serra de São Mamede, um meio rural relativamente desenvolvido.
Se tivesse que descrever as minhas turmas, diria que eram meus alunos os filhos da cozinheira da escola, o filho do motorista da Câmara, do pastor da herdade dos V., dona do restaurante S., o neto do “Ti Jaquim”. A vizinhança na sala. E eu, a filha da menina Glória, a “sôtora”, a preceder o nome.
Aprendi tanto com eles. A gramática era o fastio destes miúdos, mas a leitura e a exploração do texto fazia-os descobrir outros lugares, outras realidades. Um dia pedi-lhes um texto sobre a ocupação dos tempos livres. Um descreveu a tarefa de leva o trazer as ovelhas, o momento libertador de andar no campo, brincar com os animais sabendo quem os conduz, quem é responsável pelo rebanho. Outro falou dos cuidados a ter na criação de cães de raça como negócio e como era engraçado ter tantos “canitos”, brincar com eles, amá-los muito e aprender a deixá-los ir, porque o dinheiro faz falta.
A responsabilidade e a curiosidade que mostravam nos conceitos desbravados ao longo das temáticas, eram a minha alegria e entusiasmo em cada regresso a casa. Viajava com eles no autocarro da Câmara, subíamos e descíamos a serra, parando em cada lugar, alguns caminhos por asfaltar. E é neste regresso a casa que, de forma discreta e não intencional, os conheci muito melhor.
No ano letivo seguinte, fui colocada na Escola Secundária do Monte de Caparica, onde criei um projeto epistolar, para que “os meus alentejaninhos”, se correspondessem com nova turma de 9º ano, que me fora atribuída. Uma turma meia tresmalhada, a precisar de um pastor responsável como o meu aluno da escola de Portagem.
Foi uma ideia feliz e possibilitou negociar com estes “citadinos” uma interação fantástica, que terminou na visita à Escola de Portagem. Esse encontro é a melhor experiência que guardo da docência e que me faz acreditar que há uma essência comum à adolescência e pré-adolescência. Quase sempre está mascarada de adereços em exagero. Retirá-los, sem causar conflito ou sensação de nudez, é obra para muitas empreitadas.
As minhas terminaram, não dou aulas há algum tempo. Estou desempregada.
Nota: Este texto foi escrito para um passatempo, subordinado ao tema Histórias de Professores, proposto pela Raiz Editora. Escrevê-lo foi mais do que um exercício de escrita ou avivar de memórias. Foi um encontro muito bonito e agradável com uma parte de mim. O texto ficou em 2ºlugar. Em mim, estará sempre no top das minhas experiências, enquanto professora.
N.B.

1 Comment
Magnífico…também eu comecei a dar aulas no Norte e a essência e responsabilidades eram levadas tão mais a sério.
Obrigada por me trazeres memórias de outros tempos em que fui muitoooo feliz.
Beijinho