“A vida é lá fora”
Esta frase deveria fazer parte de um artigo da Constituição da República Portuguesa. Em cada gabinete, esta frase deveria estar bem visível, para que não houvesse dúvidas, nem esquecimentos. Numa altura, em que se escrevem tantos artigos de opinião sobre a co-adopção, lembrei-me de um momento muito especial, quando fiz voluntariado na pediatria do Hospital D. Estefânia, que à altura era ainda a maternidade Magalhães Coutinho.
Esta frase deveria fazer parte de um artigo da Constituição da República Portuguesa. Em cada gabinete, esta frase deveria estar bem visível, para que não houvesse dúvidas, nem esquecimentos. Numa altura, em que se escrevem tantos artigos de opinião sobre a co-adopção, lembrei-me de um momento muito especial, quando fiz voluntariado na pediatria do Hospital D. Estefânia, que à altura era ainda a maternidade Magalhães Coutinho.
Estávamos em 1994 e ali nasciam “os filhos do Casal Ventoso“, e das ruelas infelizes da Almirante Reis, o tão mal falado Intendente.
Foi lá que vi pela primeira vez um bebé com síndrome de abstinência, devido ao consumo de drogas duras durante a gestação. Foi lá que me afeiçoei a um destes bebés. Foi lá que presenciei o resultado da negligência, do desamor, da falta de colo. Por isso, cada segundo de afecto dado pelos voluntários, pelo corpo clínico tinha o efeito da água num ser sedento ou da comida num faminto.
Um dia, disseram-me que este bebé tinha entrado em processo de adopção. E algum tempo depois, “O sr. Fonseca”, como carinhosamente lhe passaram a chamar, por finalmente ter um apelido, foi conhecer a família e a nova casa. Nesse dia, não entrei nos quartos. Passei a manhã a arrumar roupas, e foi então que a responsável me chamou. Falou-me sobre o direito que todos temos ao amor, a uma família. Disse-me: “A vida é lá fora!”. O voluntariado e as instituições são uma espécie de paliativo. É lá fora que ganhamos o peso certo do que somos. E cada dia tem um incalculável peso na vida de quem está institucionalizado.
Um dia, disseram-me que este bebé tinha entrado em processo de adopção. E algum tempo depois, “O sr. Fonseca”, como carinhosamente lhe passaram a chamar, por finalmente ter um apelido, foi conhecer a família e a nova casa. Nesse dia, não entrei nos quartos. Passei a manhã a arrumar roupas, e foi então que a responsável me chamou. Falou-me sobre o direito que todos temos ao amor, a uma família. Disse-me: “A vida é lá fora!”. O voluntariado e as instituições são uma espécie de paliativo. É lá fora que ganhamos o peso certo do que somos. E cada dia tem um incalculável peso na vida de quem está institucionalizado.
Quando cada um de nós pensa na co-adopção sem se despir de preconceitos, valores pessoais, experiências ou teorias morais, jamais poderá sentir apenas o que interessa: O direito a ser amado. O direito a viver lá fora, nos braços de quem está disposto a acolher.
Houve dias, em que saí daquele serviço a dizer: “Que puta de vida!” E não me referia à minha, mas à daquelas almas sem opção, senão continuar lá dentro, num colo impessoal, chamado Estado Providencial, onde todos nós podemos fazer a diferença, com Amor.
Penso nisto, devíamos ganhar tempo a pensar nisto.
N.B.
