Ler em voz alta histórias para crianças faz bem que se farta, não estou a ironizar. Cá em casa temos um ritual, sujeito a negociação, que tem como prémio uma história antes de dormir. Ontem, lemos sobre o desespero de uma mãe abelha, que passava o maior dos embaraços com as birras da abelhinha. No final, resolvido de forma mestra o problema das birras, estou eu a imitar a abelha a zumbir de felicidade, quando a minha filha dispara: -“ Mãe eu já não sou assim, como essa abelhinha!”- e acrescenta: -“ Quando eu for crescida, o que é que tu vais ser?”
Imaginam o som de um suspiro? Conseguem? Sentem esse movimento no peito? Foi o que me aconteceu. Um suspiro involuntário, em reação ao silêncio que enchia a minha boca. E, lá me ocorreu expedita responder: -“Então, vou continuar a ser a mãe e a contadora de histórias.” . A ideia foi bem recebida, com os seus quatro anos a resposta deu-lhe sossego. Mas a mim, não.
Tenho pensado nisso, enquanto envio alertas ao pensamento, sabendo que o futuro não me pertence.
Uma coisa é certa, não lhe menti. Serei sempre a mãe e a contadora de histórias, não só porque gosto de ler e escrever, mas porque desde que me conheço que sou de paixões. Há sempre muitas histórias nas pessoas de paixões, pensa-se com o corpo todo e até pelas minhas tristezas sinto paixão. Estão ali, num lugar dentro de mim e vão servir para alguma coisa. Certamente para serem histórias a contar histórias.
Sempre que termino uma encenação, sendo abelha, elefante, nuvem, Pedro ou Mariana, saio do quarto em pezinhos de lã e sinto-me feliz e calma como quem volta de Neverland, e na silhueta que o meu corpo desenha na parede, há muitas histórias, há a minha.
N.B.
**”As birras da abelhinha“, de Lourdes Custódio, ed. Ambar, colecção giroflé

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"Vou ser sempre uma personagem das histórias intermináveis do meu índio gentil…!!!!"