Apanhou o cabelo para ficar diferente. Normalmente, deixava-o solto. Hoje precisava de parecer outra. Simplesmente outra. O rosto, assim, ficava a descoberto e ganhava luz. Atreveu-se com um eyeliner preto e os olhos ganharam protagonismo. Depois ousou ainda mais: pintou os lábios de vermelho.
Ficou alguns minutos diante do espelho a olhar aquela mulher que lhe parecia outra: bonita, interessante, viva. Confirmou que a imagem que o espelho lhe devolvia não tinha o ar cansado de quem vive ao acaso, vazia de alegrias, sem objetivos nem ambições.
Depois de tantos anos, era. sem dúvida uma manhã diferente.

Há dias em que acordamos como se soubéssemos tudo. Como se. soubéssemos ser felizes. Agimos com uma simplicidade, uma segurança, uma espécie de sabedoria que nos transforma. Deixamos o básico que combina com tudo e escolhemos outra coisa: um prêt-a-porté pensado, estilizado, harmonioso.

Foi assim que saiu de casa, levando aquele corpo pela rua e o espírito desperto, pronto para a vida.

Não mudamos porque as coisas mudam. É preciso algo mais profundo. Foram tantas as vozes que a tinham incentivado a sair, a divertir-se, a conhecer novas pessoas. Talvez fosse a opção mais fácil. Mas não lhe servira. A ela, não.

Pensava, com ironia, em tudo o que perdera.  Havia, contudo, uma coisa que permanecia: a beleza do rosto e do corpo. Dádivas de Deus ou do Diabo, pouco importava. Testou o riso no espelho do elevador. Soou-lhe bem. E saiu do prédio.

A mágoa ficaria fechada para sempre no coração que já não usava. Não havia vantagens num corpo com coração. Condenava-nos inevitavelmente. Pensava nisso no meio do trânsito. O fim é o fim, em qualquer parte. E o começo também. Vezes sem conta sentira que a noite não vinha de cima, mas de dentro. Pensou no Inferno, no Purgatório e no  Paraíso, e sentiu-se enganada. Todas as perguntas têm uma resposta, pensou. Guardá-las-ia no coração que abandonara de tanto uso.
E o corpo? Talvez um dia descobrisse as vantagens do corpo. Hoje, não.

 

In ” Deus criou a mulher e o Diabo inventou os saltos altos”, o meu caderno não editado.

 

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