Há quem pense que os ódios de estimação são coisa de gente ruim. Puro engano.
Os ódios de estimação são próprios de gente sentimentalista com ou sem lágrimas. Um flagelo como se pode imaginar. Alojam-se no corpo, em parte incerta, personificam a vadiagem dos afetos, no seu pior. Podiam ficar do lado esquerdo do coração em contraponto com o amor, assim acautelava a dureza dos ódios, doseando-os com uma pitadinha de ternura. Infelizmente não têm pouso certo, ora se instalam na veia jugular, ora sobem ao cérebro e o dominam por instantes, quando não descem pelo esófago e empanturram tudo.
Os mais sentimentais, os que dão importância aos pormenores, sofrem muito. Guardam tudo, a hora a que aconteceu, se chovia ou fazia sol, a roupa que vestiam e nisto demoram a dor. Mas precisamos deles, dos ódios de estimação. Afinal, são de estimação.
Sem eles ficaríamos vazios de mágoas e raivas e não levaríamos a cabo metade dos nossos objetivos. Não sejamos hipócritas, precisamos deles para nos superarmos, para nos zangarmos muito e depois seguir em frente. Sem eles não conheceríamos a felicidade e a alegria dos momentos serenos, quando se aquietam e ilusoriamente nos abandonam.

É neste jogo que abastecemos os depósitos do bem, tão distraídos que até esquecemos que na omoplata está um ódio de estimação que vai doer para sempre.
Os desprovidos de sentimentalismo desconhecem e reprovam tudo isto, mas não são melhores, nem mais felizes. Olham para os pés e julgam a felicidade pela cor dos sapatos, consideram a postura um simples fato de pronto-a-vestir que se usa para entrar e sair das relações pessoais e profissionais sem ódio, sem dor, sem culpa, sem amor. São vazias? Não, claro que não. Apenas, enchem as arcas com coisas diferentes.
Confesso que, também, tenho alguns. Às vezes, estupidamente, mexo-lhe para perceber se já não doem. E doem sempre.
Hoje espreitei-os, estavam lá e sorriram-me.

N.B.

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