Entre beijos e parabéns, ela sorria e agradecia a presença de todos. Nunca lhe passara pela cabeça festejar os 25 anos assim. Inauguraram o bar há um ano e era um caso de sucesso. Diogo Paixão era o responsável por tudo, a festa de aniversário e o rumo que seguiram as suas vidas.
Conheceram-se no ISA, ela caloira de arquitetura paisagística, ele veterano às voltas com os últimos “cadeirões” de Agronomia. Um ano a dar para trás ao Paixão, porque o achava convencido e depois uma espécie de jogo que resultou num amor, à séria, no dizer do Zé Maria, que apadrinhou esta história.
Era jovem, morena, sardenta, um sorriso aberto, cabelos castanhos a emoldurar o rosto sereno onde a rebeldia espreitava. Talvez tenha sido a rebeldia envergonhada que despertou curiosidade, ao homem cheio de sentido de humor, que era o Paixão. Isso e a teimosia dela em não lhe às graças, ele que era o número da popularidade na Associação de Estudantes e na Tuna, onde tocava cavaquinho e cantava.
Foram vários os episódios que os amigos assistiram ao toca e foge entre a ela e o Paixão. O mais emblemático estava documentado em fotos no bar. Ninguém esquece os panfletos que Paixão afixara, por toda a Tapada da Ajuda, onde se lia: “Não te faças difícil”.
Foi um dia que fez história na faculdade, principalmente quando ela recebeu o panfleto das mãos do próprio com um sorriso maroto, a que acrescentou: -” só me resta o teu sim ou voltar a Montemor e fazer-me agricultor para alegria do meu pai!”.
Montemor não ganhou um agricultor.
Ela é o fiel da balança, é quem modera os excessos. Invariavelmente, a resposta defensiva que lhe oferece sorrindo é: ” Habitua-te! Paixão!”.
Por isso, quando decidiram abrir o bar, no Príncipe Real, o nome que lhe ocorreu de imediato foi, “Habitua-te! Paixão!”. Era a certeza de que estavam unidos, neste desafio. Os pais dele ajudaram no investimento apesar de terem acalentado a ilusão do filho se interessaria pela Herdade da Barroca. Afinal estudara Agronomia. Como nunca se conta a história toda, vamos admitir que depois de tudo devidamente doído, houve tréguas e as palavras inúteis deram lugar a outras, mais construtivas.
“Habitua-te! Paixão!” é agora o bar de música ao vivo, de maior sucesso, na noite de Lisboa. Fotos coloridas e a preto e branco mostram os convidados que por lá passam, alguns com rostos bem conhecidos da música portuguesa.
É um dia diferente, celebra 25 anos. Por momentos, lembra-se dos pais que vivem em Borba. Nessa manhã, não se escapou de ouvir, ainda que em tom de brincadeira, “Parabéns, minha taberneirinha!”. O pai não resistia na piada. Pôs de lado as memórias e juntou-se aos amigos. No palco Paixão cantava, ” Tu eras aquela que eu mais queria, pra me dar algum conforto e companhia”, uma música de Rui Veloso entoada a várias vozes pelos convidados.
A felicidade cabia toda naquele bar. “Habitua-te! Paixão!” é isto, sabendo que isto é tanto, muito mais do que alguma vez pudera imaginar.
N.B.
In ” Deus criou a mulher e o Diabo inventou os saltos altos”, o meu caderno não editado:):) Uma entre muitas mulheres que por lá vivem;)
