O ato de ler reabre feridas. Nos livros
 em que isso acontece, com frequência,
 poderia ao menos haver um aviso na capa;
 assim como se faz com as carteiras de tabaco,
 embora se saiba que poucos deixam
de fumar
por isso.

Teresa M. G. Jardim
in Jogos Radicais

A história era arrebatadora como a protagonista e por isso, gostava que se prolongasse. No entanto, restavam pouco mais de 30 páginas para terminar o romance. Um enorme vazio tomou-lhe conta do olhar, do corpo e do resto se acreditasse na existência da alma.
A uma vida como a sua não acrescentaria igual noutro mundo, apesar de em criança lhe ensinaram que existia e era reservado aos bons. Pensou sobre o assunto. Que pecados teria para ir para o inferno? Vivia uma vida normal, “arrumadinha”, no dizer das amigas, com quem partilhava a rotina dos dias claros, porque o resto guardava para ela. Por isso, livros como aquele eram o vendaval que ansiava, a coragem que nunca experimentara, as dificuldades e  aventuras  loucas, pecaminosas até, que acontecem nos livros e no cinema. Através dos livros ria e chorava, enchia-se de raivas e de compaixão,  experimentava sentimentos únicos, os que uma “vida arrumadinha” não conhece.
O cacilheiro prepara a manobra para atracar no cais. Lisboa ficou na outra margem. Voltará, no dia seguinte, para cumprir a rotina do escritório, do café onde almoça com colegas,  do bulício das ruas da Baixa que a conduzem de novo ao cacilheiro. O telemóvel dá sinal de mensagem, é o marido que a espera. Precisam falar antes de chegar a casa.  Há uma espécie de ansiedade naquele sms, que ela afasta. É do seu feitio não sofrer por antecipação, parece frieza, mas é apenas um modo de defesa, que surge como o automatismo de um semáforo permitindo que se circule sem constrangimentos.
Horas depois, na varanda do sétimo piso, onde vive com o marido e o filho de doze anos sente uma vertigem. Olha a cidade recolhida na noite, o Cristo-Rei de braços abertos a Lisboa. Apetece-lhe gritar: – “Não me voltes as costas, será que o mundo está ao contrário e por isso vou ter de sair daqui e procurar o outro lado? Estás louco, queres divertir-te à minha custa?  O que queres fazer à vida arrumadinha? Desarrumar tudo?”.  Respondeu-lhe o silêncio.
A viagem entre as duas margens do Tejo não ultrapassa os vinte minutos, mas ao contrário do habitual desejava que demorasse, que demorasse muito.
Em setembro, o marido passaria a integrar um projeto, em S. Paulo e o Brasil seria, por três anos, a nova casa. Pediria dispensa sem vencimento, não tinha a certeza, o pior era a reação do filho.
O barco atracou no cais. Não terminou o livro que no dia anterior lhe alimentara a fantasia. Deixou-o no banco, onde se sentara. A senhora da frente, passageira atenta a todas as conversas e reações, não deixou passar a distração e disse: –“Olhe o livro menina, deixa aqui o livro?!” A resposta que recebeu tê-la-á surpreendido mais que as conversas que disfarçadamente ouvia: –” É para ficar, haverá quem goste de o ler!”- respondeu, sem olhar para trás.

 

In ” Deus criou a mulher e o Diabo inventou os saltos altos”, o meu caderno não editado. Uma entre muitas mulheres que por lá vivem.

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