Não, por acaso não sofri nenhuma insónia que me levasse a fazer zapping e dar de olhos  num programa da National Geographic sobre alcateias, lobos e fenómenos inexplicáveis da vida animal. Nada disso!
Tudo isto tem uma explicação perfeitamente normal, o que não significa, todavia, agradável. Bem sei que, no mês de agosto, os temas são as festas, as férias, os amores de Verão, tudo nice, cool, great, the best, whatever. Desculpem, pois, vir aqui falar de coisas mundanas e desagradáveis, que provocam dor de cabeça, pesadelos e que nalguns casos, nem com Prozac se conseguem banir da memória.
Pronto. É isso. Estou a falar de lobos disfarçados de cordeiro, dos falsos e meigos, dos que passam por cima sem pestanejar, dos que nos ensinam a desconfiar de tudo, como se tivéssemos de ser sentinelas permanentes até do nosso próprio respirar.
Precisamente em agosto, quando as férias dão o merecido descanso a muitos, outros tantos decidem, de forma traiçoeira, a não renovação de contratos de trabalho, sem qualquer aviso prévio.
Fazem-se escolhas inacreditáveis, prescinde-se de profissionais de valor e dão-se medalhas de mérito aos graciosos, aos que seguem o rebanho sem tugir nem mugir, zeladores do agrado fácil, numa compra sem direito a troco. Não é meu costume escrever sobre estas coisas dos rebanhos.  Sou alentejana e, confesso, acho lindo um grande rebanho alinhado a descer a pastagem. Há uma sinergia, uma simbiose quase comovente entre o pastor, que o conduz, e o cão, que mantém unido o rebanho e o defende do ataque dos lobos. É bucólico. É a natureza humana e animal numa prazenteira harmonia.
Aquilo de que falei mais acima é outra coisa. É a selvajaria a que a condição humana nos conduz em momentos de desnorte, como este que vivemos.
Infelizmente, sei o que é voltar de férias em setembro e descobrir  que o nosso posto de trabalho foi extinto. Vá lá: criou-se outra coisa, com outro nome, para alguém mais social, digo social,  não sociável. Segue-se o costume: Tribunal de Trabalho. É vê-los chegar,  vestidinhos como na fotografia. O que almoçava comigo e desabafava as agruras da família; a que passava a vida a dizer que isto e aquilo. Enfim, vê-los desfilar, justificando a extinção dos postos de trabalho que poderiam ser os seus.
Soube notícias de algumas dessas personagens, que comigo formaram uma equipa de trabalho num passado distante. Não lhes invejo o presente.  Lobos e cordeiros não pertencem à mesma família: uns são presas, outros predadores,  e a natureza é fiel aos seus princípios.
Hoje, uma pessoa que mal conheço desabafou comigo a dor destas deslealdades, que nos lançam para o pior de nós mesmos, tornando-nos amargos e descrentes. Existem poucas coisas mais consoladoras para o ser humano do que a simples constatação de que outros já sentiram o mesmo que nós.
Foi isso que lhe disse. E que sobrevivi. Há tanto chão, como céu ou mar, pela frente. Mil coisas boas aconteceram, talvez por causa dessa história do lobo e do cordeiro.

E depois, como diz o ditado “é mais fácil conservar o carácter do que recuperá-lo”.

N.B.

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1 Comment

  1. Hoje, muitos de nós se confrontam com a realidade que descreves e com a descoberta que, afinal, muitas das pessoas com quem partilhámos, durante anos, o trabalho se revelam desconhecidos.
    Será por certo díficil recuperar o carácter, mas pelo que tenho visto e ao contrário do que afirmas, parece muito fácil perdê-lo. Tenho medo que um dia, as circunstâncias confluam para mostrar que a pessoa que penso ser não existe. É que à minha volta tanta gente deixou de ser

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