Na minha secretária repousa uma frase de Júlio Verne: “Tudo o que uma pessoa possa imaginar, outras poderão tornar real”.
Esta noite, a frase ganhou vida num sonho. Vi-a cinzelada na parede de uma fábrica invulgar, onde o produto final eram sorrisos. Sim, uma linha de montagem de pura luz, e eu ali, estática no centro da azáfama, cega perante o significado de tudo aquilo.
Num tapete rolante deslizavam as expressões da alma, separadas minuciosamente por categorias numa segunda esteira. Passavam sorrisos de alegria transbordante, de uma melancolia mansa, de candura pura, de surpresa súbita, sorrisos tímidos, marotos, esperançosos. O cardápio de tipologias humanas era infinito. Se me coubesse catalogar o que trazia no rosto diria que o meu era de puro pasmo. Foi então que percebi o peso da minha presença naquele lugar. Esperavam que eu desbravasse um nó vital, a engrenagem que mantinha vivo o pulsar daquela manufatura. Chamavam-lhe “relógio biológico“, um pêndulo que segundo soube, começara por hesitar, atrasando o compasso até emudecer de vez. As sequelas eram devastadoras. As linhas de montagem A e B jaziam inertes e a paralisia ameaçava engolir todo o complexo. Seria o crepúsculo do mundo. Ninguém saberia habitar um planeta desprovido de riso. Próximo das máquinas paradas, uma das operárias chorava o destino comum: “Logo agora, que os pedidos de sorrisos de esperança dispararam como nunca. Como poderemos saciar a sede das gentes?!”
O desalento dos outros espelhou-se em mim. Sentei-me rendida, segurei a cabeça entre as mãos como se ao comprimir o pensamento pudesse extrair um milagre. o cérebro surgisse a solução. Foi nesse abismo que o meu olhar tropeçou na frase de Júlio Verne. No mesmo instante, a penumbra que me vestia cedeu lugar a uma réstia de esperança. A epifania era clara: é urgente semear o sonho no peito dos homens para que voltem a acreditar das pessoas no futuro. É preciso que cada indivíduo se transforme num teto habitável, num porto de abrigo. Subitamente, uma voz rasgou a névoa do sono. Alguém chamava por mim: “Mãe!”. Despertei.
Que destino terá levado a Fábrica de Sorrisos? Terá o velho relógio biológico recuperado o seu batimento? Conseguirá a fábrica responder ao clamor do mundo? As interrogações flutuam no quarto, sem resposta, deixando apenas um aperto no peito e esta certeza absurda de que a noite me levou a um lugar demasiado real.
Fecho os olhos, num esforço de regresso, e viajo até ao instante em que me estreei na maternidade. Uma lágrima morna, tecida de felicidade antiga, desliza-me pela face e desenha nos lábios a resposta: o sorriso de esperança, o mesmíssimo que outrora nascia na linha de montagem A.
Afinal, não foi apenas um sonho. Cada mãe inaugura o milagre da esperança no preciso momento em que olha pela primeira vez o seu recém-nascido. E esse primeiro olhar, como um eco divino, engendra outros, numa constelação infinita de sorrisos que acaba por inundar e salvar a nossa existência.
Ergo, no silêncio, uma prece: ” Meu Deus, impede que a Fábrica de Sorrisos suspenda o seu labor, que encerre as portas ou se mude para os confins de uma galáxia distante. Tem piedade de nós!”
N.B.

1 Comment
Lindo e de enorme sensibilidade, como é hábito nos seus textos.