Agora, que finalmente abriste o envelope não te peço que te sentes porque já estás sentada, mas que leias atentamente esta carta.
Fico satisfeito por teres deixado de estar sempre a pedir o que não te era necessário. Não faças esse ar incrédulo e lembra-te das inúmeras coisas, em que não te atendi. Se o tivesse feito, imagina a quantidade de coisas boas, de pessoas, que nunca teriam feito parte da tua vida. Já percebeste agora?
Escrevi-te para que sintas e saibas que a palavra escrita, a literatura se lhe quiseres chamar assim, é o melhor adereço para a vida. Podes usá-lo em teu benefício e ainda assim influenciarás outros. As mazelas do corpo e da alma curam-se, tantas vezes, nas palavras que se soltam numa folha em branco. Já tinhas chegado lá, não é? Foste tu que escreveste no teu blogue, ” Escrever não dói“.
Mas, lembro-te que apesar das metáforas, das comparações e outras figuras de estilo que tenhas aprendido a usar, não temas usar as palavras como elas são.
Quando falares de saudade, não escrevas sentir falta de, ou quando te referires à paixão, não lhe chames amor.
Esse é um dos maiores erros.
A partir daí, palavras, sentimentos, atitudes, nunca mais encontram a sua verdadeira natureza. Passam a viver em casa alheia.
Pensa comigo, a saudade é a lembrança dos bons momentos, enquanto que sentir falta de é um espaço de afecto que ficou vazio, que não se preenche. Percebes, o que te quero dizer?
A palavra tem de ter o compromisso de quem escreve, de quem descobre este lugar sagrado, onde te encontras contigo, comigo, com a vida.
Acreditas?
Já sabes a respostas para aquela pergunta que fazias em criança? Aquela, que te deixava parada a olhar o céu?
“O que há do outro lado do céu?”, insistias.
N.B.
