Vivo na Lua.
Sou lunática de nascimento. Do registo consta como data: “Lua Nova de final de Inverno”.
Habituei-me desde muito cedo a lidar com as fases da Lua. Aprendi a ser como as marés, impelida pelo movimento orbital do satélite. Os factos são coisas teimosas. Eu sou da Lua, é um facto e sou teimosa.
Esta característica é uma herança “do lado mais escuro da Lua”, aquele que me faz questionar sistematicamente onde começa o infinito, quem criou Deus? Bem sei, que não vou encontrar a resposta, mas na Lua encontro a tranquilidade para uma parte desta minha inquietude. E fico feliz, por lá, na Lua.

Claro que, por imposições várias, sou chamada à Terra constantemente. Lá venho eu, de braços abertos tentando mostrar segurança e capacidade de resolução para todos os problemas e chatices. Como sou lunática sempre me ocorrem ideias redondas, ou em meia Lua, o que pela sua forma circular têm uma aceitação fácil, quase mágica, algo muito próximo ao ventre materno, redondo, quente e aconchegante.
Depois, quando tudo se pacifica, volto à minha Lua, e fico a olhar o mundo. Nesses instantes o planeta é doce como o mel e manso como a preia-mar.
Do alto do crepúsculo, quando as noites de luar são prodigiosas e dignas de olhares, sou eu mesma.  A olhar os outros, do alto da minha Lua, sem ser observada.

N.B.

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