Escrever não dói.
Recuperar de memória rostos, sons, conversas, é doloroso como um pós-operatório. Requer uma preparação interior, abnegação, resiliência, superar o que não tem remédio.
Quando se é jovem, muito jovem, há pressa em tudo, uma quase urgência. A vida é como um comboio, um TGV que se desloca a uma velocidade vertiginosa em que os carris são o ponto de encontro entre o sonho e a realidade, tocam-se sem perceber que são elementos distintos que determinam a velocidade, o tempo e a duração da viagem.
Passados tantos anos, ainda, não compreendo como pudeste sair do comboio antes de chegar à estação, quando nem tão pouco havia um apeadeiro. Como pudeste saltar a meio da viagem? Não te perdoo essa saída sem direito a festa, a despedida, a um cigarro ao som dos U2 e com os berros da auxiliar do Bloco A, a ameaçar-nos com uma ida à direção. Assim teria piada, mas deixares tudo para trás, em pleno Verão, nas férias? Não te perdoo a partida de mau gosto, não me avisaste que ias ficar assim, eternamente jovem em mim, enquanto eu continuei viagem.
Agora, tenho outro rosto e o comboio encheu-se de novas bagagens, outros protagonistas, outros passageiros. Levo comigo, numa pequena mala, as fotos, os discos, a última caixa de fósforos, lembranças e o teu rosto, eternamente, jovem.
Dizem que, com o passar dos anos, o rosto passa a ser a nossa biografia. Já tenho uma biografiazita. A tua, cabe na minha pequena mala e esse atributo confere-me uma certa solidão.
N.B.

( Esta é uma homenagem a um amigo que não se despediu, que não terminou o secundário, que faleceu num acidente de viação num Verão qualquer! Always Young Paulo Carreiras)