Preâmbulo:
1º – Não te iludas com  os títulos, a maior parte das vezes são falaciosos. Lembro-me de ter lido por aí, que há dias em que muitos jornais de fidedigno apenas registam a data, tudo o resto é especulativo;
2º – Toda a escrita resulta de um sismo interior, as réplicas atingem o outro de forma suave ou avassaladora. Numa linguagem bélica o ato de escrever detona uma bomba e irremediavelmente há estilhaços. Recordar-te-ei, mais à frente.

I´ll be watching you…
Não interessa a hora a que passo naquela rua. Detrás daquela janela está sempre uma silhueta, uma boina, um olhar. Já nos conhecemos há algum tempo, ele vê-me passar diariamente, mais ou menos à mesma hora e eu vejo-o, sempre, por detrás da janela controlando cada movimento na rua. E por isso, quando viro à direita na primeira rua que leva ao bairro social, os meus olhos vão para a janela. Lá está Pablo Neruda, o poeta. Batizei-o assim, porque me faz lembrar o escritor chileno. O rosto largo, os olhos pequenos, curiosos e vigilantes, os óculos de massa, a boina preta irrepreensível. O ar pitoresco, à Neruda, fantasiado por mim.
Percorre a rua de uma ponta à outra sem sair da sua guarita. Ninguém entra na tasca do Nuno sem que o poeta o saiba. O cabeleireiro da Cilinha, também, tem “vídeo vigilância” assegurada. E é sempre assim, de segunda a sexta, olhando e vendo o movimento dos carros, das motoretas e dos skates da pequenada. Mas é nas pessoas que passam a pé, que os olhos do poeta se detêm com demora, como se quisessem sair, também eles, e caminhar.
Tenho muita curiosidade acerca da figura imóvel por detrás da janela. Certamente tem problemas de mobilidade, talvez viva só.  Tudo o que sei tem o tamanho da janela, o demais é imaginação.
Dou por mim receosa de um dia a janela estar fechada, de não haver quem vigie a rua. Notei que ele, também, já sentiu a minha falta. Na semana em que a minha filha ficou doente e não tive de ir por ali. Notei-lhe uma curiosidade redobrada, quando voltei. Como se me perguntasse com os olhos, por trás da janela, o motivo da ausência. E quando passei com a minha filha pela mão, a janela estava aberta. Vi-lhe o rosto envelhecido, a boina preta e levantou a mão para acenar à menina, que lhe devolveu o aceno. Eu sorri-lhe, quis dizer-lhe,  Boa Tarde. Não o fiz, fascinada que fiquei  no aceno, no sorriso do poeta.
A partir daí encontrei muitas vezes a janela aberta. Há acenos que se dão e se estreitam. Um dia até repreendeu um miúdo que quase nos derrubava com o skate.

Fernando Pessoa dizia: “ Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver.“.
O poeta, por detrás da  janela, vive com o movimento de todos os que por lá passam e lhe preenchem as horas. Ao escrever sobre ele, nada mais faço que cristalizar a sua imagem, oferecer as palavras que não lhe dei.
Interrogo-me: Se há um falar? Porquê o escrever?
O poeta entenderia as minhas interrogações. Também ele olha, vê,  acena, sabedor de que o dizer lhe trará a sobrevivência, quando o que prefere é viver.

Volto ao preâmbulo: as advertências:  99% das vezes servem apenas para ser ignoradas. Talvez as que enumerei não tenham escapado às estatísticas. De qualquer modo, lembrar-se-ão “da bomba”, ” dos estilhaços”?!
Se porventura, estiveres disposto a seguir-me, sugiro Sting. Ouve o refrão, “Every Breath you take, Every move you make…I´ll be watching you.” . E se o rosto de Pablo Neruda vier à tua memória, se te apetecer revê-lo numa pesquisa rápida,  se tens curiosidade sobre “o poeta” de que te falei, se te faz lembrar outros rostos solitários que vigiam as ruas das cidades, dos bairros, em toda a parte, são os estilhaços desta história. Não tenho dúvidas.

N.B.
( 27 de Maio, 2013)

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1 Comment

  1. José Eduardo Responder

    Tive a dita e a felicidade de poder visitar as casas do poeta Pablo Neruda ,no seu querido Chile.Cada casa era uma mulher , cada mulher era uma casa.Graças a este teu escrito, juntei ás imagens reais da minha experiência, mais um "poeta" que, muito embora não seja Neruda, tem seguramente pela vida, o mesmo amor e a mesma ânsia de a VIVER.Obrigado

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