Não sou do mar, sou da planície, dos campos inundados de papoilas, onde o Verão se instala amarelecendo a paisagem, escaldando num brasido o que só as árvores suportam. Um dia regresso ao Alentejo.
Diz-se que, a necessidade e o engenho fazem descobrir capacidades e forças onde não existiam. Descobri que o mar é a minha planície, no agora que é o melhor tempo. Quando sinto saudades da planície, vou ver o mar. A ondulação assemelha-se ao movimento do vento nas searas. Há um murmúrio constante entre as ondas, as rochas, a areia. Às vezes, medem forças, outras vezes aquietam-se, embalam-se, fazem como as árvores e deixam-se estar.
Fui ver o mar num dia em que a calmaria deu lugar à turbulência. Não encontrei nada da minha planície, tal a força das ondas, a fúria do mar. A planície alentejana é mais delicada, está-lhe na génese. O substantivo que a nomeia é feminino. O mar é possante, viril. Descobri nesse dia, que apesar das diferenças, também sou do mar. Agora rivalizam em mim os dois. Pintei uma pequena tela e para assinalar a descoberta e bebi um segundo café.
N.B.

1 Comment
As tuas palavras deixam-me sem palavras e as que saem vêm envergonhadas perante tanto poder..
mas acabas de me descrever!!
Também eu sou de campos de papoilas e de Verões quentes, não de planícies, antes de montanhas, mas tudo o resto sinto de igual forma e emociona-me ler-te!!
Não pintei nenhuma tela, não a ofereci nem tomei esse café..mas talvez o faça um dia, resta saber se terá o Mar ou o Monte a colori-lo!!
Obrigada por me fazeres voar contigo nestas palavras arrebatadoras!!