Ontem, o serão foi passado em frente à televisão a ver a entrega dos Globos de Ouro da Sic. Uma noite de glamour e muita má língua. Não me interpretem mal, mas é impossível não ceder ao comentário fácil dos looks das vedetas.
As minhas filhas deixaram-me que nem uma barata tonta, com tanta solicitação. Faltavam-me olhos e neurónios para atender a tudo:
“- Mãe olha, a Diana Chavez que gira!”; “- Mãe, olha aquela de preto, a loira, mãe. Como é que se chama?!”
Caramba, uma pessoa quase alucina, senão fosse aquela funcionalidade de puxar a imagem atrás, teria perdido grande parte da passadeira vermelha, com tanta pergunta. Até aposto, que muitos de vocês se identificam com este meu serão, mas confesso sem constrangimentos que foi muito bem passado.
Assistir a um bom programa de entretenimento, sem ter de aturar reportagens, comentadores e demais intervenientes do jornalismo desportivo, é uma benção.
Mas adiante, que ainda não cheguei onde quero chegar, ao momento de clímax, da gala. É óbvio, que me refiro à entrega do prémio de Mérito e Excelência, atribuído ao Professor Mário Moniz Pereira, o “Senhor Atletismo“.
Primeiro, deixem-me dizer que é comovedor vê-lo com 92 anos, uma silhueta que se curva face a tantas vivências, tantos objectivos alcançados, tantos obstáculos ultrapassados. A imagem do mérito sem precisar de adjectivação. Tenho uma profunda admiração pelo seu trabalho e este prémio é mais que merecido.
E eis chegado o momento, em que o título do meu texto ganha sentido – Anticlímax e os Globos de Ouro Sic. Quem acompanhou a cerimónia lembrar-se-à das palavras que o Professor repetiu insistentemente: “Não ouvi o som da guitarra”, leia-se da guitarra portuguesa. É que ao contrário de outros premiados, Mário Moniz Pereira acreditou que além de ser homenageado, ali se homenageava a música portuguesa, naquilo que para ele é a portugalidade dos acordes de uma guitarra portuguesa. Mas não, o que ele ouviu e que mereceu o prémio de melhor música, foi o “Desfado”, de Ana Moura, sendo que os outros dois candidatos a este prémio cantavam em inglês. Mas houve mais, o convidado da noite foi Jamie Cullum e eu percebo perfeitamente que Mário Moniz não tenha gostado disto. Aliás, repetiu-o várias vezes, lamentou-o sem quaisquer constrangimentos, apenas com a sinceridade e a frontalidade que a idade lhe concede. Um anticlímax!
Primeiro, parecia uma piada bem engendrada, depois foi ver como é constrangedor um homenageado repreender os organizadores da festa, pela falta de gosto, pela falta de bom senso. Afinal, “o melhor é português”, dizia o galardoado.
Adorei este anticlímax, foi genuíno como sempre foram as atitudes e as provas dadas por este grande Senhor.
O dr. Pinto Balsemão terá de reflectir sobre as palavras simples do homenageado e constrangimentos à parte, foi de Excelência.
N.B.

1 Comment
Depois de ler este fabuloso relato lamento ter perdido tal espectáculo, que sinceramente não aprecio por me parecer uma feira de vaidades,mas fico feliz em saber que alguém teve a coragem de levantar a voz em desagrado ao que por cá se faz!!