Há uma amiga de quem gosto muito e com quem falo pouco. Foi com ela que saí as primeiras vezes, ainda adolescente, ela já adulta. Foi com ela e os amigos, que dançávamos em festas e discotecas, bebíamos Pisan Gambon, Cuba libre, fumávamos e divertíamo-nos muito.
Ela é como eu, sempre a fermentar ideias. É uma mulher muito criativa, nem sempre fácil de entender e, às vezes, de gostar. Tem um coração bom, generoso, alegre e insatisfeito, difícil de apaziguar. Um dia, encerou os estofos do banco detrás do carro para nos fazer “dançar” nas curvas da Serra de São Mamede. Noutra ocasião, pensou e criou um desfile de moda, roupas feitas de material reciclado, de originalidade e paciência. O desfile realizou-se na discoteca, A Cave, em Santo António das Areias e marcou uma geração. O mesmo entusiasmo motivou a empreitada, que envolveu um grupo de jovens, na pintura do interior do Centro Recreativo da aldeia. Era agosto, mês de férias e muito calor. São muitos os momentos felizes. Há outros, mais contrários, em que nasceram hiatos e silêncios, coisas que não esperávamos.
É uma amiga de quem gosto muito e com quem falo pouco. Tentamos esconder as marcas do tempo e as feridas que lambemos a sós. A cumplicidade e as conversas perdem-se, mas que não desaparecem. É sempre possível cortar com as servidões que a vida nos dá, enquanto comemos pão quente com manteiga, rimos das danças no banco detrás do carro nas curvas da serra e ouvimos o apito do Lusitânia a chegar à estação, onde já não passam comboios.
