O senhor que me leva pela mão, mora hoje num hangar da minha memória. Um lugar que se redimensiona com o passar do tempo.
Lá guardo tudo o que houve de melhor. Lá vive o meu avô Barradas. Lá, onde se misturam aromas, comidas que ninguém mais fará, músicas, histórias, assobios, passos, cores, vozes, mimos, instantes, festas, silêncios, a mão que dá a mão, o lenço que limpa a esfoladela do alcatrão, os ombros que fazem de cavalinho, os abraços, os beijos de boa noite, os segredos que confiei, a lengalenga que ajuda a comer a sopa…
Sou habitada por uma multidão de gente, que me acompanha até onde estou.
O meu avô Barradas é o homem que me leva pela mão, com quem ensaiei tantos passos.
Visitei no tal hangar um ritual, que o avô tinha com os netos. Mensalmente, íamos ao armazém onde trabalhava para que nos medisse e nos pesasse, na balança das mercadorias. Depois, o avô registava os valores num pequeno caderno quadriculado preto. Acho que esse foi o meu primeiro campeonato perdido. A altura traiu-me.
Retenho o cheiro que caracterizava o armazém. Cheirava a cominhos, quase todo o ano, excepto perto da Páscoa, quando a fábrica confeccionava amêndoas de sobremesa e outras. Nessa altura os bolsos do avô recheavam-se das nossas preferidas, as amêndoas de sobremesa.
Ainda hoje, quando confecciono uma comida com esta especiaria volto lá. E sou fã de amêndoas.
Passados tantos anos sinto animo ao recordá-lo. Sim, anima-me o espaço enorme que ocupa neste hangar. Consigo ver e compreender a vida que espalhou à sua volta, em tantos e em mim.
A distância que nos separa está na cabeça e é lá quando fecho os olhos, que procuro reconstruir o tamanho daquela mão, o calor e o flash que dá luz àquele instante.
N.B
