Quase todos se recordam dos autos de Gil Vicente e de como as personagens retratavam a sociedade da época. Num esforço de aproximação ao enquadramento que Gil Vicente deu aos autos,  peço-vos que participem num exercício do faz de conta. Imaginem não uma barca, mas um banco de jardim. É num banco de jardim que a conversa, que se segue, tem lugar. Incomodaram-se alguns pardais e pouco mais.


UM ” – Nós, os parvos, assistimos à desfaçatez dos que se julgam espertos, com um sentimento de repulsa que nos torna incapazes de ceder ao facilitismo da cunha, da amizade bafejada no alcance de melhores contactos profissionais e sociais, que se engrandecem na ambição desmedida.

(silêncio)

Nós, os parvos, desempenhamos na perfeição o papel de parvos, quando nos lançam o isco na ponta do anzol. É da nossa natureza, educação, dos princípios que nos foram incutidos, sinceramente a explicação que me ocorre, vem sempre de dentro.  É algo, que se situa abaixo da pele, como se o mérito próprio fizesse parte de uma das camadas da epiderme.

(os pássaros cantam e mudam de árvore num voo rasante)

Nós, os parvos, somos como uma zona de paisagem protegida, que todos defendem, mas que ninguém quer para si, porque não rende.
E tocam-nos coisas de nada, como a falta de gratidão, o oportunismo, a deslealdade, o desapego…”

Outro “- Mas olha, nos tempos que correm fazer juízos de valor é, provavelmente, uma das formas menos recomendável de despender tempo e energia anímica. Todos os dias se torna óbvio que os tempos são de profunda e acelerada mudança. É importante perceber o que somos, de que somos feitos muito antes de nos determos a analisar o que nos rodeia. Tropeçar no próprio pé, também nos faz cair!”

UM “- Lá tás tu! Não lixes a conversa! (…)

(Os pássaros levantam voo)”


N.B.

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